Este é o meu quadro preferido. A primeira vez que o vi, eu tinha uns 8 anos. A minha tia, que era recém casada na época, tinha uma réplica deste quadro. Quando eu ia pra casa dos meus avos (eles moravam juntos com os meus tios), ia no quarto dela olhar este quadro.
As cores alegres me fascinaram e despertaram uns sentimentos peculiares sobre este quadro. A minha tia, a mais nova solteira, fazia artes plásticas na facu e tinha AQUELE estojo de lápis Caran D´Ache... Ficava vidrada naquele estojo me metal, com desenho de algum alpes na capa, mas a minha tia me proibiu expressamente de usá-los. Lógico, custando o olho da cara, super caro, se hoje é caro, imagine nos 80´s.
Eu pegava o meu jogo de lápis de cor, deitava de barriga no chão e ficava horas tentando copiar as cores de Renoir. Mal fazia idéia de quem era o pintor, de onde era... Mas aquelas cores me fascinavam mesmo. Olhar a este quadro me dava uma vaga sensação de felicidade e bem estar. Sentia como se aquele jogo de luzes e sombras penetrasse nos meus olhos, transformando a minha vida ao redor.
Coisas de criança...
A minha tia me disse que era Renoir, um pintor frances. Mal sabia onde ficava a França.
O tempo passou, mudei de endereço 2x em escala internacional, mas aquele quadro ficou na minha mente como símbolo da alegria e felicidade genuína da minha infancia.
Em 2005, quando casei, fomos a Paris na nossa lua de mel. E fui a Musee de Orsay com toda expectativa de ver O QUADRO.
Chegando lá, passando pelos impressionistas (inclusive Van Gogh - outro preferido meu, louco de pedra... curto um psycho), o meu coração quase saía pela boca, uma emoção de finalmente encontrar algo tão conhecido, porém novo. Entende? É uma imagem que a sua retina está habituada a ter e imaginar, no entando, é algo inédito estar de cara a cara com o original.
Chegamos a ala de Renoir, procuramos e NADA. Pxxx decepção, cade? Com meu frances super arrojado, perguntei para a funcionária onde se encontrava Le bal de Moulin de la Galette. E ela me disse que ele estava temporariamente no Musee de Bercy, numa exposição de Renoir.
O problema é que, se não me engano, era o nosso penúltimo dia em Paris, e estávamos com agenda lotada. E o Museu bendito era fora do nosso percurso. Mas, com a compreensão do meu marido, nós cruzamos a cidade e achamos.
Quando finalmente chegamos, subimos e a sala estava lotada de estudantezinhos primários. E por cima das cabecinhas loirinhas, eu avistei o quadro.
Como explicar estar diante de algo que voce desejou ver a vida toda? Como explicar o sentimento de ter dado voltas ao mundo para ver algo que formulou o senso de beleza na sua infancia? Como reagir diante de algo que transformou a sua vida, ainda tão criança, com a sua beleza?
De certa forma, eu me sentia conectada a este quadro e (sem querer ser fantasmagórica) com o Renoir. Não sei verbalizar, mas me sentia muito comovida por cada personagem pintado, com cada pincelada e cada binomio luz-sombra que ele retratara quase 1 século antes.
O que uma menininha orientalzinha de 8 anos tem a ver com Renoir, um pintor impressionista nascido 100 anos antes... Um mistério...
Os meus olhos se encheram de lágrimas e fiquei chorando um tempo na frente do quadro. O meu marido me deixou a vontade, achou um banco pra sentar (talvez pensando que tinha se casado com uma psycho... se arrependendo de não ter pedido previamente um atestado de sanidade mental) e esperou.
Fiquei um bom tempo, admirando cada pincelada (impossível de constatar nas réplicas), como se conversasse com um velho amigo. Toda aquela euforia inocente que sentia quando criança voltou, por um momento fugaz, ao meu coração. Como se o tempo, desde a primeira vez até aquele dia, desse voltas ao meu redor...
Não preciso dizer que nas próximas vezes que voltei a Paris, fui ver o quadro. Não é a mesma comoção da primeira vez, mas o meu coração pulsa mais forte a medida que eu me aproximo da sala onde ele está. Toda aquela felicidade pura invade o meu coração, sinto-me uma criança de novo, com meus lápis de cor na mão a deitar de barriga e tentar copiar as formas e as cores.
É estranho como algo tão aleatório pode unir duas almas tão diferentes e distantes. Esse deve ser o poder da ARTE, imagino. Algo que perdura através de mundos e tempos, penetrando o fundo da essencia do ser humano, despertando reações que ele próprio desconhece e sobre os quais ele não tem controle.
Não preciso dizer que tenho um encontro marcado com ele, de novo, neste mes de maio...
Esta foto eu fiz naquele primeiro dia do nosso encontro. E realmente, eu espero que todos tenham um quadro, uma música, um livro... algo que cause esse estranho e maravilhoso efeito. Uma experiencia quase divina... Para superar isso, só encontrando Deus face a face...
Au revoir
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